Medo da chuva

Depois que passou um mini tornado pelo meu bairro, meus filhos nunca mais foram os mesmos.

Era finalzinho de Novembro, Paulo estava em casa com as crianças e eu estava em uma cafeteria no centro da cidade em reunião com uma amiga. Quando estávamos no caixa pagando a conta começou a chover aquela chuva grossa e barulhenta de uma vez. Nos sentamos para esperar a chuva passar, já que havíamos estacionado longe. Porém, depois de alguns minutos esperando percebemos que a chuva só aumentava e resolvemos ir embora assim mesmo, sabendo que íamos chegar no carro como pintinhos molhados. Mas, como dizia minha avó: “Você não é de açúcar minha filha! Vai com chuva mesmo.”

Entrei no carro e liguei para casa avisando que eu ia pegar trânsito porque a chuva estava muito forte mas Paulo disse que a chuva nem tinha chegado lá ainda, então não me preocupei.

Do centro da cidade até minha casa, geralmente eu demoro uns 15 minutos pra chegar. Mas nesse dia, imagina só? Era muita chuva, muito carro, folhas pra todo lado, muito vento. Eu fui ficando apavorada. À medida que chegava mais perto de casa o cenário estava caótico. Árvores grandes caídas em cima de carros, casas destelhadas, ruas interditadas, eu nunca tinha visto nada parecido na vida.

Quando cheguei há duas quadras de casa, quase todas as árvores da rua estavam no chão, arrancadas pela raiz e quase todo mundo estava fora de casa, avaliando os estragos que a chuva tinha feito.

Cheguei em casa com o coração a mil por hora, não via a hora de ver e saber da minha família. Quando as crianças me viram estacionar na garagem, a primeira coisa que disseram foi: – “Fica calma, mãe. Não fica triste.” E já pensei: Como assim ‘Fica calma?’ Então, me abraçaram e começaram a contar sobre árvores voando em direção à nossa casa, a chuva entrando mesmo com as janelas fechadas, a sala e os quartos inundados, telhado que saiu, o vento forte que até balançou a casa e o quanto eles ficaram com medo da tempestade. Contaram que o papai desceu até o porão e que oraram juntos, enquanto o Davizinho gritava: “A gente vai morrer.”

Depois daquele dia, qualquer chuva que começa, Luiza vem pra perto da gente e David sai correndo gritando: – “Mãe, tem que fechar as janelas.”

Essa semana enquanto eu levava o David na escola, começou a chover bem no meio do caminho. O olhar dele mudou. Ficou preocupado e disse: – “Será que as janelas de casa estão fechadas, mãe?”

Sei que aquela tempestade deixou uma cicatriz de medo na vida dos meus filhos. Quando a chuva começa eles lembram daquele dia e sentem medo. Não há nada que eu possa fazer para convencê-los de que chuva igual aquela é rara de acontecer de novo. O melhor que posso fazer é mostrar que estamos com eles em qualquer tempestade.

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Mesmo que eu não tenha visto as tempestades que cada um sofreu, eu aprendi a respeitar as cicatrizes que ficaram sabendo que estas já os tornaram resilientes.”

– Kelen Franco 

 

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