Que Mulher!

ad4c69de2da95ad4994fc88a39ef9021Eu amo ter nascido mulher e agradeço a Deus pelas mulheres que Ele colocou na minha vida.

Cresci numa família de mulheres fortes e isso foi fonte de inspiração para mim. Olhar à minha volta e ver mulheres trabalhadoras, guerreiras, bonitas, que não dão desculpas para levantar e ir à luta foi o que ajudou a construir o meu caráter.

Minha avó era costureira e lembro-me dela fazendo bonecas e ‘barbapapas’. Os ‘barbapapas’ eram basicamente travesseiros com pernas. (Risos) As bonecas tinham as pernas finas e compridas, vestido com babadinhos, cabelo de lã e rosto pintado à mão. Minha avó era muito caprichosa.

Quando ela terminava algumas bonecas e alguns ‘barbapapas’ saíamos para vender. Íamos de casa em casa oferecendo e, ao final da tarde, ela já tinha vendido tudo. E era assim que ela fazia o dinheirinho dela, que depois acabava gastando com os netos. (Risos) 

Lembro que um dia eu perguntei a ela se ela poderia fazer uma boneca pretinha pra mim, já que só fazia bonecas brancas. Ela se espantou e me perguntou como iria pintar os olhos com tinta preta se o tecido fosse preto. Eu disse: – “Ué! Pinta de branco, vó!” E foi assim que ela fez. Costurou uma boneca bem pretinha pra mim com cabelos coloridos com quem brinquei um tempão.

Minha avó já é falecida. Quando lembro dela eu penso: “Uau! Que Mulher!” Dona Arlê. Carioca que, depois de 40 anos morando no Paraná, ainda falava “Cinquenta e Seixxxx”. Casou-se nova, teve três filhos e nunca parou de trabalhar. Parecia uma formiguinha. Rabugenta? Sim! Tagarela? Muito! Tinha diabetes e comia sorvete escondida. (Risos) Cantava lavando a louça. Uma voz linda da qual nunca esquecerei! Era semi-analfabeta e lia a Bíblia todos os dias. Entregava panfletos sobre Jesus aos quatro cantos de Londrina e não sabia dirigir. Mas, sabia de cor todas as linhas de ônibus e se virava para ir em qualquer lugar da cidade! Que saudades!

Lembro dela ser constantemente preocupada com os filhos. Uma mãe e vó presente. Lembro dos bolinhos de chuva e da panqueca de carne moída. Também me lembro dela perguntando, quase todos os dias em que me via, se eu estava comendo ‘banana com aveia’ porque eu estava muito magrinha. (Risos)

Sei que durante a vida da minha avó, ela não planejou inspirar alguém com sua maneira de viver. Mas na sua simplicidade, ela só viveu intensamente a vida que teve e isso inspirou todo mundo à sua volta.

Hoje em dia parece que a vida se tornou complicada e fútil. Aquela simplicidade que eu via na minha avó não se encontra mais. Os bolinhos de chuva e a panqueca de carne moída foram substituídos por bolos feitos de microondas. A boneca feita de pano que levava horas para costurar, encher, pintar, montar, vender foram substituídas por uma Barbie que já vem com tudo pronto.

A simplicidade estava na dedicação à vida… no processo da vida, não no resultado. Como minha avó sendo tão simples, conseguia fazer a coisa mais complexa da vida: viver?

Dona Arlê. Arlezinha. Vó, Feliz Dia da Mulher que você foi! E que Mulher!

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