Se a Barsa pudesse falar

DSC00490.JPGSemana passada em um texto sobre leituras na biblioteca eu citei a Barsa. Publiquei o texto mas depois fiquei pensando: “Será que as pessoas sabem o que é Barsa?”. Eu ri sozinha e me senti… como vou dizer… antiga.

A Barsa era uma enciclopédia riquíssima com 16 volumes. Os livros eram bem grossos e tudo o que você queria pesquisar tinha na Barsa. A Barsa era como se fosse um Google encadernado. Desde ciência até história, política, tudo. A biblioteca pública tinha a Barsa mas quem tinha a Barsa em casa você podia dizer que aquela pessoa era muito rica.

Na minha adolescência era normal as pessoas passarem de casa em casa vendendo a Barsa. A Barsa era tão cara que os vendedores faziam uma oferta com um carnê junto pra você pagar parcelado. Mas era um absurdo de caro! Se fosse hoje, a Barsa custaria uma passagem de avião de Santa Catarina pro Nordeste. É sério! Eram 16 livros com capas duras. Coisa linda de viver! Imagina cada livro custar uns 100 reais? Faz a conta!

Mas pra mim, naquela época, a Barsa era moderna. Nas páginas sobre o Egito tinha muitas ilustrações das pirâmides, dos papiros, das múmias, dos escritos nas paredes. Era muito legal a gente poder ver as figuras no livro.

Quando a gente tinha que fazer trabalho em grupo a gente se encontrava na biblioteca pública, escolhia uma mesinha e pegava a Barsa pra copiar. Eu disse copiar? Sim. A gente literalmente copiava enquanto conversava. A parte mais legal era conversar, mas eu me lembro da sensação de estar na biblioteca, naquela mesinha de madeira com as cadeiras em volta e a Barsa no centro da mesa.

Eu acho que se a Barsa pudesse falar com a gente hoje em dia, acho que seria mais ou menos assim:

“Ah! Que saudade daquele tempo. Saudade de ser uma só com vários livros e ter prazer em ensinar. Saudade de quando as crianças chegavam na biblioteca, largavam suas bolsas nas mesas e vinham até a prateleira. Saudade das risadas delas em volta da mesa e da bibliotecária fazendo “shhhhhh” tentando fazê-las ficar quietas. Sinto saudade dos grupos que vinham até a biblioteca para fazer trabalho. Seus olhos ficavam encantados com tantos livros que podiam ler. Saudades daquele grupinho de meninas que estava toda semana na biblioteca. Eu confesso. Eu ouvia a conversa delas. Naquela época, a Juliana não estava bem com a mãe e a Alessandra estava gostando de um menino do colégio. Eu não via a hora delas voltarem na próxima semana pra conversar. Eu me preocupava com elas. Queria saber como estavam. Elas contavam suas vidas umas pras outras e até esqueciam de fazer o trabalho. Mas eu me divertia com elas. Sabia que elas não estavam ali só para aprender mas para se relacionar. Que saudade daquele tempo! Minhas páginas agora estão amareladas, mas elas já foram brancas. Sinto que envelheci na prateleira e muitos nem sabem o que significa uma prateleira com uma Barsa. Sinto que fiquei um pouco desatualizada mas não estou triste. Por mais que minhas páginas enfraqueçam e as letras se apaguem, ainda guardo memórias e lembranças que nunca serão apagadas.” – Barsa.

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